Data:
10/06/2013
Veículo:
Revista Cult
PLATERO E EU
A voz melodiosa do andaluz universal Platero e Eu, clássico de Juan Ramón Jiménez, reúne consciência estética, moral e social - Margareth dos Santos Juan Ramón Jiménez (1881-1958) ocupa um lugar central na conformação da lírica espanhola do século 20. O poeta, que se definia como o andaluz universal, encontra nesse achado conceitual a fórmula capaz de articular uma postura que revelava a tensão entre a identidade particular e as verdades objetivas do mundo. Ao definir-se como andaluz universal, o poeta equilibrou-se entre o permanente esforço do particular sem abandonar o universal, na ação de encontrar o universal graças à identidade. Sua capacidade de transitar entre diferentes repertórios estéticos foi decisiva para que se configurasse como um poeta singular na tradição moderna espanhola. E é dessa capacidade de trânsito entre diferentes propostas poéticas que surge PIatero e Eu, grande representante da relação entre o espaço natural e o da cultura. PIatero é concebido e escrito entre os anos de 1906 e 1912, período no qual o autor sofre sucessivas crises depressivas. Não por acaso Juan Ramón insere o subtítulo Elegia andaluza no livro. A elegia é uma modalidade poética que se caracteriza pelo canto à ausência de um ente querido; ao cantá-la, conjugam-se a ausência e a presença desse ser querido e seu entorno, um tempo pretérito que retorna na prosa poética e se faz presente aos olhos do leitor. Leitura abrangente necessário dizer que o autor nunca denominou essa obra como um livro exclusivamente para crianças; não obstante, advertiu para essa via de leitura. Para o poeta, Platero e Eu não tinha um destinatário concreto e preciso ("Este livro, em que a alegria e a dor são gêmeas, como as orelhas de Platero, foi escrito para ... não sei para quem!... para quem nós poetas líricos escrevemos ... Já que é para crianças. Não lhe tiro nem ponho uma vírgula. Ótimo!"). Esse é um dos motivos que tornam a obra tão abrangente, podendo ser lida por adultos e crianças sob distintas óticas, mas com igual intensidade, cada qual a seu modo. Ao longo de seus 138 capítulos (a tradução aqui comentada não recolhe os três apêndices que surgirão mais tarde), Platero e Eu reúne consciência estética, moral e social, além de uma pitada generosa de simpatia do autor, que a tradução consegue configurar em sua extensão. Em seu percurso, o livro oferece um leque de possibilidades de leitura, das quais destacamos duas: pode ser lido tanto como uma obra única, em uma sequência de aventuras do burrinho Platero e do "eu" que nos conta sua história, como uma sequência de contos hermosos e singulares, em que as andanças do poeta e seu burrinho descortinam a beleza da paisagem andaluza e de seus habitantes, suas dores e suas alegrias. Encerrada em um ciclo natural, a narração vai de uma primavera a outra, revelando a beleza de cada estação, bem como distintas maneiras de encarar a natureza local. Associação, emoção e evocação conformam o tripé da realidade que se dilata aos sentidos do leitor. A presente edição reúne e amplia todos esses elementos em distintos níveis. Oferece-nos ilustrações tão cromáticas quanto a obra de Juan Ramón; expõe- nos uma verdadeira dança de cores em verbo e imagens, configurando uma impressionante união entre a palavra melódica e a imagem naïf (sem ser infantilizada). Revela-nos a prosa poética como uma forma condensada da linguagem, o que converte a tarefa da tradução em uma busca pelo sentido, pelo tom, cores e musicalidade embalados por uma escritura capaz de conjugar a fluidez da prosa com a função poética. Tradução artesanal A edição bilíngue garante o respeito ao leitor, que em uma leitura comparativa pode observar e reconhecer a tarefa de titãs de devolver na mesma moeda o conhecimento e a sensibilidade do autor. Trata-se de uma tradução artesanal, em todos os sentidos positivos que essa palavra compreende. O esforço da prática tradutória vai muito além de termos técnicos, para descansar no regaço da perspicácia estilística, capaz de penetrar com acuidade no texto de origem. Fina alquimia de palavras, exercício de busca por uma sinonímia adequada, alcançadas pela perseguição da musicalidade a favor da beleza traduzida em forma de prosa poética. Destreza para poucos. Há, ao longo do livro, pequenos deslizes, como a tradução equivocada de uma palavra, a supressão de uma frase inteira (capítulos XLV e XLIX) e a inconstância na tradução das citações em inglês, italiano e francês. Tudo de fácil solução e que não diminui o trabalho. Em suas escolhas, a tradução mostra-se como um equilíbrio na corda bamba, que se sustenta entre o bom senso e a sensibilidade. Manter esse equilíbrio requer eleições e uma delas se configura na opção por não traduzir a fala dos diálogos em sua tentativa de emular a dicção andaluza. Escolha difícil que pende para a compreensão da fala, ainda que prive o leitor de elementos fortemente caracterizadores da cadência poética juan-ramoniana. Os trejeitos léxicos do andaluz, que servem para modelar de forma estilística o texto, são tratados como elementos de intradutibilidade e, aqui, o texto perde sua melodia. Mas trata-se de uma escolha e, como tal, deve ser respeitada. O livro, em seu conjunto, evidencia um fino exercício de dissecação de palavras e imagens. Texto complexo, sem ser complicado. Platero e Eu Juan Ramón Jiménez Trad.: Monica Stahel WMF Martins Fontes 296 págs. ¿ R$ 48
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Data:
10/06/2013
Veículo:
Guia da Folha
PLATERO E EU
PLATERO E EU Muitas vezes o livro do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez, ¿Platero e Eu¿, tem sido considerado uma fábula infantil, ao narrar as aventuras do burrinho Platero em tom de fábula poética e filosofante; não se trata do caso. Com sua linguagem requintadíssima, da mais elevada expressão lírica, com seu tom de frescor e, por vezes, de melancolia, ¿Platero e Eu¿ é uma imersão no que há de mais humano e profundo, uma busca pelo genuíno, um desejo de realização estética e ética, por entre as cinzas de uma Europa convulsionada pelas guerras e submersa sob o peso atroz do materialismo mais embrutecedor. Em algum sentido, ao lermos ¿Platero e Eu¿, e acompanharmos as andanças do poeta e do animalzinho, voltamos a ser crianças, ao retomarmos o contato com a esfera mágica e idílica da sensibilidade de um universo encantado e tocado pela beleza. (CEO) AUTOR Juan Ramón Jiménez TRADUÇÃO Monica Stahel EDITORA WMF Martins Fontes QUANTO R$ 48 (312 págs.) AVALIAÇÃO ótimo
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Data:
10/06/2013
Veículo:
Diário do Grande ABC
PLATERO E EU
Ao pai com carinho Editora lança obra-prima em homenagem a seu fundador Melina Dias Um significativo lançamento marca os 50 anos da fundação da Livraria Martins Fontes. É Platero e Eu (296 págs., R$ 48), obra-prima da literatura espanhola do século 20, de autoria de Juan Ramón Jiménez, prêmio Nobel de Literatura em 1956. A publicação sempre foi um desejo de Waldir Martins Fontes, um dos fundadores da editora nascida em Santos, morto em novembro de 2000. "Platero e Eu sempre foi uma das obras favoritas de meu pai. Durante anos, ele sonhou com a possibilidade de publicá-la no Brasil, e, por razões diversas, nunca chegou a fazê-lo", lembra o herdeiro Alexandre Martins Fontes. Apesar de o autor Juan Ramón Jiménez ser reconhecido como um grande poeta, sua obra mais conhecida é um volume de prosa poética sobre a amizade entre um homem e seu burro, de uma primavera a outra, ambientada na cidade natal do autor, Moguer, na região espanhola de Andaluzia.¿ "Na obra de Ramón Jiménez transbordam lirismo, simplicidade, musicalidade, e sobretudo, melancolia. A mesma melancolia do fado português, que meu pai tanto amava", observa Alexandre Martins Fontes. Cada detalhe foi pensado com extremo carinho. Optou-se por uma edição bilíngue para que o leitor tenha contato direto com a melodia e a doçura da voz do poeta. Como é dividido em 138 capítulos curtos fica fácil comparar rapidamente original e tradução, a cargo da competente Monica Stahel. As ilustrações levam assinatura do premiado Javier Zabala. "Ao longo das últimas décadas Platero e Eu conheceu inúmeras edições no mundo inteiro. Nenhuma mais bela que esta", valoriza o editor. O certo é que caminhantes, amantes da natureza e seres observadores devem ser tocados pelo olhar aparentemente simples do poeta sobre paisagens e figuras humanas que surgem ao longo da jornada do homem e seu burrinho andaluz. Trecho "Entrando na invernada dos cavalos, Platero começou a coxear. Fui para o chão. ¿¿ Mas, homem, o que houve? Platero levantou um pouco a mão direita, mostrando a ranilha, sem força e sem peso, quase sem tocar com o casco a areia ardente do caminho. Com solicitude maior, decerto, do que a do velho Darbón, médico dele, dobrei-lhe a mão e observei a ranilha vermelha. Um espinho grande e verde, de laranjeira, estava cravado nela como um perfeito punhalzinho de esmeralda. Tocado pela dor de Platero, puxei o espinho; e levei o coitado até o riacho de lírios amarelos, para que a água corrente, com sua longa língua pura, lhe lambesse o ferimento. Depois, seguimos para o mar branco, eu à frente, ele atrás, ainda mancando e me dando suaves cabeçadas nas costas..."¿ Capítulo XII, O Espinho, página 27
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Data:
10/06/2013
Veículo:
Folha de São Paulo
PLATERO E EU
Jiménez evoca melancolia irônica de Bandeira em saga autobiográfica NOEMI JAPFE COLABORAÇÃO PARA A FOLHA No livro "Meus Poemas Preferidos", de Manuel Bandeira, publicado pouco antes de sua morte, em 1966, o poeta seleciona, entre outros, cinco poemas do espanhol Juan Ramón Jiménez. Não é à toa. Afinal, de quem são essas palavras: "É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e rijo por dentro, como de pedra. ( ... ) Ele tem aço. Aço e, ao mesmo tempo, prata de luar"? De quem são as palavras e de quem é a ternura misturada à dureza do aço? De quem são as reticências seguidas de ponto e vírgula? São de Jiménez, do livro "Platero e Eu" (em nova tradução e edição bilíngue), mas poderiam tranquila (e ferreamente) ser de Bandeira. É mesmo inevitável, para um leitor brasileiro, acompanhar as venturas e (poucas) desventuras desse estranho narrador de Jiménez e não lembrar sempre e imediatamente da ternura, da melancolia e de uma certa ironia de Bandeira o narrador de "Platero e Eu" suscita estranhamento porque carrega muito da autobiografia do escritor é de Moguer, a mesma aldeia em que o autor nasceu; conhece Shakespeare, Ronsard e passa o inverno com os livros ¿ mas é, ao mesmo tempo, uma mistura de louco e bobo, de barbas longas, que anda para lá e para cá montado em cima de um burro. Trata-se, portanto, de uma mistura livre de autobiografia e invenção, o que mais uma vez nos lembra de Bandeira e mais uma vez confirma como, em literatura, a averiguação da verossimilhança dos fatos tem muito pouca importância. O que importa mesmo é conhecer a infância que permanece morando nas palavras de um escritor como Jiménez que já em 1917 era um autor consagrado (ganhou o Nobel em 1956), a amizade que liga o protagonista a seu burrinho, o tempo e as estações percebidas pelo olhar de um ser que é ao mesmo tempo burro e homem. Nas andanças, vamos também nós aprendendo o que não se aprende na escola, uma das instituições condenadas pelo narrador, junto com a igreja: as flores e as estrelas. E só podemos então concordar com a ideia de que os homens bons deveriam ser chamados de asnos, os asnos maus deveriam ser chamados de homens e que a palavra asnografia, dicionarizada, deveria ser definida assim: "Descrição do homem imbecil que escreve dicionários". Ao final da leitura, cíclica como as estações do ano que a narrativa vai pintando em textos curtos, o leitor se torna também ele um amigo de Platero e sabe, também ele, e como sabia Manuel Bandeira, dizer o porquê das coisas serem como são: "Porque sim". PLATERO E EU Autor: Juan Ramón Jiménez Tradução: Monica Stahel Editora: WMF Martins Fontes
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