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Pagar por sexo é o seu prazer
O amor romântico não tem graça para o canadense Chester Brown, e isso ele deixa bem
claro em seu polêmico livro
Por Diogo Guedes
Uma mulher não está com vontade de transar com seu parceiro, mas decide fazê-lo
pelo bem do seu relacionamento com ele. E se decidisse fazer sexo com a mesma
pessoa por dinheiro, e não por um sentimento de culpa ou dever? Para o quadrinista
canadense Chester Brown, um dos mais polêmicos da atualidade, não há diferença
entre os cenário. Seu novo livro, Pagando por sexo (Martins Fontes, 296 páginas, R$
47), lançado agora no Brasil, é um relato autobiográfico que fala sem pudores ou
moralismo da comercialização do sexo.
O livro traz a experiência do próprio autor com prostitutas, desde de sua última
desilusão amorosa com uma namorada até a monogamia com uma profissional – que
também passou a tê-lo como único cliente –, que já dura nove anos. Na narrativa,
Brown é um autor de quadrinhos que, desiludido com o amor romântico, decide que não
quer ter mais relacionamentos. Em dado momento, resume seus desejos assim: quer
transar e, ao mesmo tempo, não ter uma namorada. Sexo casual está fora de questão,
pois ele diz não ter “traquejo social para arranjar alguém para transar sem
compromisso” e, de certa forma, não quer isso.
Decide, então, tentar fazer sexo pago, que nunca havia sido uma opção para ele não
por tabus morais, mas sim pelo medo do que seus amigos ou futuras namoradas (que
ele diz nunca mais querer ter) pensassem. Superada a questão, Brown passa a ser um
assíduo cliente de diversas mulheres, que atendem nas suas próprias casas ou vão
até o domicílio do quadrinista. O livro narra essas experiências friamente, bem ao
estilo do autor, que é descrito por amigos como um “robô”.
No apêndice e nas notas do livro é que Brown parece mostrar seu maior intuito com a
obra. Lá, faz uma defesa, a partir de tópicos e respondendo a possíveis dúvidas e
reclamações de leitores, da descriminalização da prostituição.
A retórica de Brown é muito bem definida conceitualmente, e por isso parece
funcionar muito bem. Sua defesa é a de que todos são livres para fazer o que
quiserem com o seu corpo e, na maiorias das vezes, tentar impedir ou mesmo
regulamentar isso é danoso para os que participam dessa troca – até porque a
maioria das prostitutas não gostaria de se assumir como profissional, dado o
estigma da atividade. A prostituição é, para ele, uma troca comum: menos do
que “vender o corpo” ou qualquer termo que tenha um cunho moralista, aqui está se
falando de uma troca voluntária de sexo por dinheiro.
Brown tem uma lógica liberal, mais do que no sentido moral do termo, no sentido
econômico. Mulheres e homens têm direito a fazerem o que bem entenderem. Se, em
teoria, o argumento funciona com perfeição, ignora que muitas vezes questões
sociais estão relacionadas à atividade, como a pobreza e as drogas. A prostituição,
para ele, é sempre uma escolha, a despeito das condições materias que podem pender
para um lado da balança, fazendo uma pessoa que não quer de verdade trabalhar
fazendo sexo precisar fazê-lo - é quando uma escolha acontece apenas na
aparência.
Ao mesmo tempo, Brown fala mais de acompanhantes, de pessoas que atendem em um
local específico ou em casas especializadas, mas lembra que as profissionais de rua
são as que mais sofrem com a criminalização. Por exercerem uma atividade ilegal,
não podem ligar para a polícia caso um cliente não pague, passando a depender de
cafetões.
Como a própria narrativa, sua argumentação é sóbria, fria, mas de difícil
refutação, com exceção de um deslize ou outro, quando, por exemplo, traz poucos
argumentos sobre a dependência química e cita apenas um especialista para dizer que
o vício em drogas pesadas se baseia simplesmente em uma escolha do usuário,
ignorando a dependência química e psicológica. Também compara coisas que não
necessariamente são iguais, como a prostituição feminina e a masculina.
Pela argumentação do livro, é difícil negar que, despido de tabus morais, é preciso
ver, ao menos em condições ideais, a prostituição como escolha de quem a pratica -
e, portanto, um direito. Mais do que uma narrativa empolgante, é uma provocação
para o leitor, talvez necessária para descontruir preconceitos com a atividade.
Escritor paga também por afeto, diz psicóloga
Para a psicóloga pernambucana Marta Hazin, que pesquisa o universo das prostitutas
e leu o livro, Pagando por sexo é um trabalho cuidadoso. “O autor não fez a obra só
a partir da sua experiência. Ele pesquisou, não escreveu na doidice”,
comenta.
A contradição do livro, para ela, não é nos argumentos de Brown, mas no discurso
contra o amor dele. Para ela, o autor não é um cliente comum, que só quer transar,
porque esses entram e saem sem sequer falar direito com a prostituta. “Acho que ele
trocou a relação romântica por sexo pago, mas com alguma afeição: no fundo, ele
paga também paga pelas conversas com as prostitutas”, explica Marta Hazin. A busca
por afeto no sexo pago é de certa forma natural. “Só sexo não preenche uma pessoa”,
ela define.
A principal diferença entre a realidade brasileira e pernambucana, para a
psicóloga, é que o ambiente da prostituição aqui é bem maior violento. “Não é tão
tranquilo quanto lá. O Canadá é um pais é mais civilizado, com índices mais baixos
de crimes”, explica. “Ser prostituta aqui está muito vinculado à violência e ao
envolvimento também com as drogas”.
Segundo ela, hoje a prostituição é considerada um trabalho comum no Brasil. Sua
defesa é a mesma de Chester Brown: a solução não é regulamentar, mas sim
descriminalizar a atividade. "Eu conversei com muitas prostitutas e já estive no
sindicato daqui. Criminalizar só gera mais violência", expõe, alertando que proibir
a prática não a faz deixar de existir.
Em conversas com prostitutas que conheceu, ela lembra que não são raros os casos de
mulheres que querem vender sexo e, ao mesmo tempo, frequentar normalmente a
sociedade e, por exemplo, fazer faculdade. "Mesmo a atividade sendo legalizada no
Brasil, essas pessoas não iriam querer a carteira assinada como profissional",
afirma. Apesar de ser uma atividade condicionada à beleza e à juventude, Marta
Hazin diz que isso não é um problema, porque outras atividades, como a de modelo,
são assim.
Entrevista - Chester Brown
(Agência Estado)
Quando planejou o livro, já imaginava que falaria
bastante sobre as prostitutas?
Quando comecei o projeto, eu decididamente achava que haveria muito mais sobre
prostitutas no livro. Algumas delas haviam me contado detalhes muito interessantes
sobre suas vidas pessoais, e pensei que esses detalhes ajudariam a humanizá-las e
deixar claro por que fizeram as escolhas que fizeram. Mas, quando me sentei para
escrever o livro, percebi que esses tipos de detalhes da vida pessoal eram
demasiado reveladores - eu não queria arriscar a possibilidade de alguém poder
identificar alguma das mulheres com base nas informações do livro.
Há alguma diferença entre trabalhar ou com narrativa ou com memória? O que muda no
seu trabalho?
Um livro de memórias é uma espécie de narrativa, mas para ele somos obrigados a
contar fatos tal como realmente ocorreram, ou o mais próximo dos fatos que a
memória permite. Fiquei tentado a ficcionalizar a história - usar outro nome para o
personagem principal, não chamá-lo Chester. Isso me daria mais liberdade. Eu
poderia ter inventado antecedentes sobre as vidas das prostitutas. Poderia ter
criado detalhes sobre "Denise" para tornar o final mais satisfatório. Mas queria
ser honesto sobre como os tópicos são pessoais para mim, e não queria que as
pessoas tivessem de especular o que era verdade e o que não era. Quando chamamos um
livro de livro de memórias, estamos dizendo que ele é todo verdadeiro. (Há alguns
elementos ficcionais no livro, mas eu assinalei todos eles em notas no
final).
De onde vem essa tendência estilística de drenar a emoção em seu estilo de desenho?
Acredito que haja emoção nas expressões faciais dos personagens, mas tento fazê-la
bem sutil. Tendo a gostar da obra de artistas que minimizam a emoção - há muitos
que exageram. O criador que mais me influenciou nesse sentido foi o cineasta Robert
Bresson, cujos filmes eu amo.
Como decide o ritmo dos diálogos? Como determina a estrutura?
Um livro toma forma à medida que se trabalha nele. Com Pagando por Sexo, escrevi
inicialmente um roteiro que era todo diálogo. Depois, escrevi um segundo rascunho
no qual distribuí o diálogo por quadrinhos (mas sem os desenhos), reescrevendo, se
necessário. Nesse estágio, estava obtendo uma ideia mais clara da estrutura do
trabalho, acrescentando e removendo cenas. Em seguida, fiz os desenhos. Depois de
feitos, eu me sentei e li a coisa toda. De novo, algumas cenas tiveram de ser
acrescentadas, outras tiveram de ser removidas. Boa parte do diálogo havia sido
ajustado, a essa altura. Amigos leram o livro e fizeram sugestões - algumas eu
usei. Um elemento que não estava nos enredos originais foi o final. Esperava que,
enquanto trabalhava nos desenhos, um fim se imporia de alguma maneira. Era
monogâmico com "Denise" quando comecei a desenhar Pagando por Sexo, mas não sabia
que continuaria a ser monogâmico com ela, e não sabia que ela se tornara monogâmica
comigo. Esse relacionamento monogâmico me proporcionou o fim da história. Gostaria
apenas de poder dar mais detalhes sobre o nosso relacionamento, sobre como ele
funciona, e como ela é maravilhosa. Incidentalmente, ainda somos monogâmicos um com
o outro, e eu ainda lhe pago por sexo. A esta altura, já faz nove anos que nós nos
conhecemos. Não há nenhuma tentação de minha parte de fazer sexo com qualquer
outra.
Você se vê como escritor político, ou sente que autores são criaturas
inevitavelmente políticas?
Não comecei como criador político, mas me tornei cada vez mais político com o
passar do tempo. Seria difícil escrever sobre prostituição de uma perspectiva
apolítica.