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Editora Tara Books cria livros artesanais ilustrados
SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO
Em tempos de crescente interesse por livros eletrônicos e aumento no consumo de
tablets, uma editora que funciona em esquema de comunidade hippie no sul da Índia
tem chamado atenção por seus livros artesanais.
Só no Brasil, quatro casas, entre elas, Martins Fontes e Scipione, já importaram
versões traduzidas das obras da indiana Tara Books. São histórias ilustradas, em
geral infantis, editadas e impressas à mão, num processo em que cada página é uma
gravura, com cores aplicadas uma a uma em camadas diferentes.
Se as narrativas não impressionam pela complexidade, a qualidade da imagem e o
esmero no acabamento fazem desses livros --com tiragem máxima de 5.000 exemplares--
objetos de cobiça.
No fim de uma conferência sobre o futuro do livro na tradicional Feira de
Frankfurt, executivos cercaram o estande da Tara afoitos para fechar um negócio
diferente, impossível de fazer nos e-books.
"Eles me disseram que não importa o que inventassem, nada teria a mesma qualidade
desses trabalhos artesanais", afirma Arumugam Chinnasamy, diretor editorial da
Tara. "Essa é uma tradição antiga na Índia, estamos só reproduzindo as histórias
orais para o formato de livro."
ALDEIA GLOBAL
No total, 17 pessoas trabalham num vilarejo no sul da Índia para fazer esses
livros, entre ilustradores e gravuristas. Quando um funcionário se casa, a editora
financia a construção de sua moradia.
Mas a atenção global voltada para esses livros, já editados em países como Brasil,
França, México, Itália e Japão, fez com que aumentasse a gama de colaboradores
espalhados pelos quatro cantos do planeta.
Tanto que o pernambucano J. Borges, um dos maiores gravadores populares do Brasil,
está agora ilustrando um novo produto da editora.
Outro lançamento previsto para o ano que vem vai contar a história de Martin Luther
King, com texto do poeta americano Arthur Flowers, design gráfico italiano e
ilustrações de indianos --os dois livros sairão no país pela WMF Martins
Fontes.
ULTRACOLORIDOS
Essa mesma editora, a WMF, já lançou outros três títulos da Tara em português.
Entre eles, "A Vida na Água", que chegou às livrarias em novembro, chama a atenção
pela textura trabalhada de seus desenhos ultracoloridos.
"Vejo editoras no mundo todo com um interesse maior em criar objetos que não sejam
reproduzíveis no formato digital", diz o editor Alexandre Martins Fontes. "Esses
livros são tão complexos e difíceis de fazer que são obras de arte, já não são mais
só um produto industrial."
No longo processo de confecção, o texto vem por último. Como as ilustrações são as
mesmas em todas as versões, o conteúdo em línguas diferentes, dependendo da edição,
é aplicado só no fim, após a camada final de tinta.
"A Vida Secreta das Árvores", best-seller da Tara, é um dos casos mais complexos.
Numa tiragem de 4.000 exemplares, mais de 300 mil impressões são necessárias para
garantir a qualidade das cores nas ilustrações.
Cecília Lopes, da editora Gaia, conta que, mesmo com as dificuldade de traduzir o
livro para o português, o resultado plástico de "Faça como os Warli!" conquistou
leitores infantis. "É um desenho que conta muitas coisas", diz ela. "As crianças
ficam fascinadas com esse processo."