Matéria:
Lógica e LOUCURA
João Paulo
Volume em quadrinhos sobre a vida e as ideias de Bertrand Russell apresenta
inovadora história da matemática, tratando conceitos com rigor sem perder a força
da comunicação e existe um assunto mais distante do mundo das histórias em
quadrinhos, sem dúvida deve será busca filosófica dos fundamentos lógicos da
matemática moderna. Se fosse fácil, não seria tão bom.Um dos grandes méritos de
Logicomix – Uma jornada épica em busca da verdade, de Apostolos Doxiadis e Christos
H. Papadimitriou, é exatamente enfrentar tema tão sofisticado sempre der, em
nenhuma de suas quase 350 páginas, o que a HQ tem de melhor: poder de sedução e
diálogo. O livro chega no Brasil escorado numa carreira de sucesso em todo o mundo,
tendo cravado o primeiro lugar na lista dos quadrinhos mais vendidos do New York
Times.
O livro pode ser lido como um romance histórico sobre o século 20. Para isso,
nenhum personagem é melhor que Bertrand Russell (1872-1970). O homem, que viveu
praticamente um século, esteve envolvido em tudo que podia interessar a mentes
inquietas e produtivas: foi matemático, filósofo, educador, escritor, psicólogo,
lógico e militante pacifista. Em cada um desses campos propôs ideias fundamentais.
Deu mostras de sua radicalidade pessoal em política e comportamento. Era um homem
livre em um século que buscava a liberdade. Ficou órfã criança, casou-se quatro
vezes, temeu a loucura que alcançou seus filhos. Viveu o século de duas guerras
mundiais, de experiências socialistas, de revolução no campo do conhecimento. Em
todos esses momentos, teve participação marcante.
Logicomix pode também ser uma introdução ao problema do conhecimento, de como as
mentes mais brilhantes enfrentaram a mais antiga questão filosófica: é possível
garantir que o conhecimento seja verdadeiro? Russel, em sua busca pela verdade
absoluta, se relacionou com nomes como Gottlob Frege, David Hilbert, Kurt Gödel,
Henri Poincaré, Peano, Cantor, Whitehead e Ludwig Wittgenstein, entre outros. Todos
eles, com suas ideias e obsessões, são personagens da história. Em encontros,
disputas e reencontros, os mais brilhantes pensadores do século 20 mostram sua face
humana, capaz ao mesmo tempo de pensamentos revolucionários e vaidades.
Um terceiro nível de leitura, que vai além do aspecto biográfico e da introdução
aos conceitos, é o teatro da loucura. Os autores parecem, o tempo todo, se proteger
da sombra da desrazão, como se o bilhete para adentrar em questões tão profundas
fosse o risco da perda da lucidez. Não foram poucos os filósofos que chegaram a
esse limite. Eles se mostram irascíveis, violentos, preconceituosos,
antissemitas. O próprio Bertrand Russell,com sua fleuma de lorde inglês, conhece
bem os pés de barro da razão e teme, a cada esgotamento nervoso, que a consciência
lhe fuja ao domínio.
INTERTEXTUAL Mais que discutir as teses apresentadas pelos autores – e até
mesmo certos excessos, como a consideração exagerada do paradoxo do barbeiro
proposto por Russell em 1901 –, Logicomix é um soberbo trabalho de quadrinhos. O
roteiro é eficiente e perspicaz, os desenhos sofisticados e delicados, sem brigar
em momento algum com o texto. A estratégia intertextual propõe interessante
jogo lógico e temporal, que tem tudo a ver com a história.
O drama intelectual e humano encenado nas páginas do livro envolve o leitor em sua
aproximação em círculos ao tema fundamental. Assim, quando a discussão matemática
parece se tornar técnica demais, passa a destacar os dilemas pessoais e até
eróticos de Russel; quando a biografia do personagem se torna por demais
psicológica, é hora de falar da guerra, de pacifismo e do risco do nazismo; quando
o contexto fica em destaque, os autores equilibram com a apresentação do espectro
da loucura que ronda os pensadores.
A perda da razão é mais que ameaça: Cantor, o mago da infinitude, morre no
hospício; Frege, o maior dos lógicos, morre alienado exingando os judeus como
responsáveis por todos os males da civilização; Gödel, que provou que a
incompletude não pode ser vencida, é vencido pelo desequilíbrio e morre de
inanição. Russell não chega a ficar louco,mas tem comportamentos condenáveis, sobre
tudo com as Mulheres e os amigos (que trai sem maiores crises de consciência). Não
se sabe se a loucura impulsiona a inteligência até seus limites ou se, perto da
máxima abstração, a razão sucumbe em busca de amarras ao real.
Na primeira parte, os autores conversam em Atenas sobre o projeto de um livro sobre
os fundamentos da matemática. Escolhido Russel como condutor da narrativa, é o
pensador que aparece contando sua própria história numa conferência, com direito a
flash backs e mudanças de rota. O leitor, que nunca se perde nesse jogo, pode
escolher ser parceiro dos autores da HQ ou de Russell, já que os dois convidam com
a mesma força para seguir a história.
Em seguida, em cada parte, o espetáculo da vida e do conhecimento vai sendo
desdobrado junto com a história dramática do século 20. Ao final, auto
resedesenhistas, encerrada a tarefa, vão assistir à apresentação de um clássico de
Ésquilo, Oresteia, no teatro ao ar livre. Eles percebem que se encena um drama que
atravessa os séculos e pode ser lido a partir dos problemas de cada era. A verdade
é uma busca e cobra dos homens a tolerância, o senso de gratidão e a procura da
convivência pacífica. Só assim é possível colher os frutos sob o sol e partilhá-los
com os iguais. Na existência, na política e na matemática, a grande lógica é o
amor. Qualquer que seja seu nome.
GENEROSIDADE Antes de chegarem aos quadrinhos, com a colaboração dos
artistas Alecos Papadatos e de sua mulher, Annie di Donna, os autores haviam
exercitado a busca de público não especialista. Apostolos Doxiadis, matemático
formado nos EUA, escreveu um romance, uma história ficcional da matemática (Tio
Petros e a conjectura de Goldbach). Jáogrego Christos Papadimitriou é professor de
ciência da computação em Berkeley e, além de trabalhos científicos, publicou um
romance sobre Turing e a complexidade computacional.
Por que cientistas com carreira consolidada dedicam anos de suas pesquisas a
escrever um sofisticado livro em quadrinhos sobre tema tão complexo? Essa pergunta
é fácil de responder, bem distante dos enigmas filosóficos dos fundamentos da
matemática e da lógica: porque são caras legais. O conhecimento anda por vários
caminhos, mas é sempre importante dar o primeiro passo. Nesse momento, além do
saber é preciso certa dose de generosidade.
. LOGICOMIX
De Apostolos Doxiadis e Christos H. Papamitriou
EditoraWMF Martins Fontes, 348 páginas, R$ 65