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    LOGICOMIX

    Data: 03/07/2010
    ISBN: 9788578272784
    Veículo: O Estado de São Paulo
     
    Matéria:
    Chegou às livrarias nesta semana a melhor graphic novel que li neste ano,
    Logicomix.



    O lado humano da busca lógica
    A partir da biografia do pensador inglês Bertrand Russel, Logicomix, elogiada
    graphic novel grega que acaba de chegar ao Brasil, traduz em aventura visual os
    intrincados fundamentos da matemática

    Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo



    Foi a matemática que salvou Bertrand Russell (1872-1970) de seus arroubos suicidas
    juvenis. A noção que o filósofo e matemático inglês tinha desse fato, que ele
    tornaria público tempos depois na autobiografia Greek Exercises, ajuda a entender
    por que, dentre os tantos gênios da ciência exata no século passado, foi ele o
    escolhido para protagonizar a graphic novel Logicomix, recém-lançada pela WMF
    Martins Fontes.


    Publicada na Grécia em 2008, Logicomix pode ser definida numa sinopse mais
    apressada como uma trama sobre a busca pelos fundamentos lógicos da matemática.
    Mas, fosse apenas uma espécie de manual para iniciantes, não teria arrebatado
    público ao ponto de liderar a lista de HQs mais vendidas do New York Times por
    semanas a fio e, ao mesmo tempo, arrancado elogios derramados da crítica
    internacional. “Queríamos uma história sobre as pessoas e as paixões que moveram
    suas ideias”, diz o roteirista Apostolos Doxiadis, em conversa por telefone com o
    Estado, de Atenas. A proposta aumentou a complexidade da narrativa, cuja elaboração
    exigiu dois anos de discussões e outros cinco para roteiro e arte, com uma equipe
    que incluía o especialista em lógica Christos H. Papadimitriou e os desenhistas
    Alecos Papadatos e Annie Di Donna.


    Um lógico ciente de suas fraquezas era o personagem ideal para humanizar essa
    história. Descendente de nobres, Russell foi, além de filósofo e matemático,
    ativista político, ícone do pacifismo e galanteador incorrigível (casou-se quatro
    vezes, teve três filhos e apaixonou-se pela mulher de seu mais duradouro parceiro
    intelectual, Alfred North Whitehead). “Ele era muitos. Mudou várias vezes de ponto
    de vista, de filosofia, de posição política. Quando alguém fala sobre Russell, a
    questão é sobre qual está falando, qual idade, qual mentalidade, qual teoria. A
    única coisa que permaneceu por toda a vida foi a insatisfação com o que não podia
    explicar”, analisa Doxiadis. Por esse aspecto, Logicomix engloba vários Russells,
    já que o segue da segunda metade da década de 1870 até 1939. E se dá o direito de
    alguma “liberdade quadrinística”, inclusive nas participações de nomes célebres
    como Kurt Gödel, Gottfried Leibniz e Ludwig Wittgenstein


    Não menos intrincada é a forma da narrativa. Como uma matrioska, a boneca russa que
    contém outras similares dentro de si, ela se constrói em camadas, na definição de
    Doxiadis. A exterior tem como personagens os autores da HQ, envolvidos na tentativa
    de esclarecer para eles mesmos o que será tratado nas páginas a seguir. Eles
    apresentam os fatos da segunda camada, na qual Russell chega a uma universidade
    americana, em 4 de setembro de 1939 – logo depois de o Reino Unido entrar na 2ª
    Guerra -, convidado a palestrar sobre a lógica nas questões humanas. É abordado na
    entrada por manifestantes, que clamam por seu apoio pela não-participação dos EUA
    no conflito, e os convence a entrar no auditório para ouvi-lo.


    Na palestra, Russell passa a narrar a terceira camada, cronológica, que começa no
    dia em que ele, criança, vai morar com os avós e se vê num ambiente de regras
    rigorosas e ardor religioso. É nesse cenário que trava o primeiro contato com a
    matemática. Logo percebe uma insatisfação com aquela “mágica” que agora o fascina –
    a existência de fatos aceitos sem provas, como o axioma “através de um ponto
    exterior a uma reta só é possível passar uma reta paralela a ela”. “De que vale uma
    demonstração que se baseia em algo não demonstrado?”, questiona o garoto ao
    professor na graphic novel. A imagem o perseguirá pelo resto da vida: “A matemática
    era como o cosmos da mitologia indiana: sua aparente solidez na verdade dependia
    dos caprichos dos animais que o carregavam. A matemática se erguia sobre bases
    instáveis.”


    Loucura. É irônico que, no sentido emocional, tenha sido também sobre bases
    instáveis que se construiu o pensamento da época. A estranha relação entre lógica e
    insanidade é outro tema central da HQ, que desfia exemplos. A loucura acometeu o
    russo Georg Cantor (1845-1918), “o homem que provou da árvore do conhecimento do
    infinito”, e o alemão Gottlob Frege (1848- 1925), autor dos Fundamentos da
    Aritmética; já o austríaco Gödel (1906-1978) morreu de fome, paranoico com a ideia
    de ser envenenado. Russell não perdeu a razão, mas temeu isso toda a vida. Dois de
    seus tios eram loucos e um filho sofria de esquizofrenia, assim como uma neta, que
    se suicidou. “A alta incidência de doenças mentais entre os fundadores da lógica
    foi algo sobre o que escreveu (o filósofo e matemático ítalo-americano) Gian-Carlo
    Rota. Faz sentido se pensarmos que a lógica leva a extremos”, analisa Doxiadis.


    O jovem Bertrand Russell se colocava no limiar entre a filosofia e a matemática.
    Era seguidor do alemão David Hilbert (1862- 1943), que pregava a rigorosa exatidão
    da demonstração na matemática. O outro extremo tinha como maior nome o francês
    Henri Poincaré (1854-1912), defensor da importância da intuição. Mas, por
    curiosidade, a maior contribuição do inglês para a discussão enfraqueceu o lado que
    ele defendia. Foi em 1901, quando lhe ocorreu a questão que viria a ser
    exemplificada mais ou menos desta forma: os homens de uma cidade são obrigados por
    lei a fazer a barba todo dia. Eles podem fazer a própria barba ou recorrer ao único
    barbeiro local, cuja atribuição é barbear só aqueles que não fazem a própria barba.
    Assim sendo, quem faz a barba do barbeiro?


    Parece um simples jogo de palavras, mas, para a busca da base lógica na matemática,
    foi um baque. A ponto de, dois anos depois, Frege ter incluído um adendo no seu
    segundo Fundamentos da Aritmética: “Poucas coisas podem ser mais desastrosas para
    um autor de textos científicos do que ter um dos pilares de sua empreitada abalado
    depois de concluir sua obra. Vi-me nessa situação ao receber uma carta do sr.
    Bertrand Russell, justamente quando o processo de publicação deste volume estava
    quase concluído.” Russell e Whitehead passariam duas décadas tentando resolver isso
    em estudos que resultariam nos três volumes do Principia Mathematica. Não foram bem-
    sucedidos, mas plantaram as bases que inspiraram Gödel e Wittgenstein, entre
    outros, e foram fundamentais à ciência da computação.


    Ficção. Formado em matemática na Universidade de Columbia, Doxiadis
    experimenta a intersecção com a ficção desde 1992, quando publicou o best-seller
    Tio Petros e a Conjectura de Goldbach (Editora 34). “Estou acostumado a me dirigir
    a pessoas que não entendem de matemática. Acredito que os leitores dos meus dois
    livros, em geral, gostam de literatura, e não de obras de ciência popular. Mas não
    vejo sentido em tornar as coisas difíceis para o leitor, em fazê-lo trabalhar para
    entender o que está lendo.” Sempre hábil com as palavras, o autor fica vários
    segundos em silêncio ao ser questionado sobre por que resolveu contar a história
    numa HQ. Por fim, argumenta: “Eu nunca poderia escrever um romance histórico. Isso
    exigiria enormes descrições, e elas me entediam. Tenho mais interesse por ideias,
    diálogos, ações e paixões. Numa graphic novel, você deixa a arte fazer a descrição."

     

     

    PRÓXIMOS LANÇAMENTOS
     
    Introdução à análise do direito
    Carlos Santiago Nino
     
    Libertação animal
    Peter Singer
     
    Nova criminologia e os crimes do colarinho branco
    Ryanna Pala Veras
     
    O que é uma criança
    Beatrice Alemagna
     
    O Quilombo dos Palmares
    Edison Carneiro
     
    Pau-Brasil - col. "Um pé de quê?"
    Regina Casé e Estevão Ciavatta
     
    Tempo e narrativa vol. 1
    Paul Ricoeur
     
    Tempo e narrativa vol. 2
    Paul Ricoeur
     
    Tempo e narrativa vol. 3
    Paul Ricoeur
     
    Vocabulário de Aristóteles
    Pierre Pellegrin
     
    Vocabulário de Descartes
    Frédéric de Buzon e Denis Kambouchner
     
    Vocabulário de Merleau-Ponty
    Pascal Dupond
     
     
    SAIU NA MÍDIA

    Data: 05/09/2010
    ISBN: 9788578273057
    Veículo: Livraria da Folha
    Matéria:

    Em 12 sessões, livro apresenta como funciona tratamento de caso clínico...


    Data: 18/08/2010
    ISBN: 9788578272784
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    Data: 21/08/2010
    ISBN: 9788578272067
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