Matéria:
Chegou às livrarias nesta semana a melhor graphic novel que li neste ano,
Logicomix.
O lado humano da busca lógica
A partir da biografia do pensador inglês Bertrand Russel, Logicomix, elogiada
graphic novel grega que acaba de chegar ao Brasil, traduz em aventura visual os
intrincados fundamentos da matemática
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Foi a matemática que salvou Bertrand Russell (1872-1970) de seus arroubos suicidas
juvenis. A noção que o filósofo e matemático inglês tinha desse fato, que ele
tornaria público tempos depois na autobiografia Greek Exercises, ajuda a entender
por que, dentre os tantos gênios da ciência exata no século passado, foi ele o
escolhido para protagonizar a graphic novel Logicomix, recém-lançada pela WMF
Martins Fontes.
Publicada na Grécia em 2008, Logicomix pode ser definida numa sinopse mais
apressada como uma trama sobre a busca pelos fundamentos lógicos da matemática.
Mas, fosse apenas uma espécie de manual para iniciantes, não teria arrebatado
público ao ponto de liderar a lista de HQs mais vendidas do New York Times por
semanas a fio e, ao mesmo tempo, arrancado elogios derramados da crítica
internacional. “Queríamos uma história sobre as pessoas e as paixões que moveram
suas ideias”, diz o roteirista Apostolos Doxiadis, em conversa por telefone com o
Estado, de Atenas. A proposta aumentou a complexidade da narrativa, cuja elaboração
exigiu dois anos de discussões e outros cinco para roteiro e arte, com uma equipe
que incluía o especialista em lógica Christos H. Papadimitriou e os desenhistas
Alecos Papadatos e Annie Di Donna.
Um lógico ciente de suas fraquezas era o personagem ideal para humanizar essa
história. Descendente de nobres, Russell foi, além de filósofo e matemático,
ativista político, ícone do pacifismo e galanteador incorrigível (casou-se quatro
vezes, teve três filhos e apaixonou-se pela mulher de seu mais duradouro parceiro
intelectual, Alfred North Whitehead). “Ele era muitos. Mudou várias vezes de ponto
de vista, de filosofia, de posição política. Quando alguém fala sobre Russell, a
questão é sobre qual está falando, qual idade, qual mentalidade, qual teoria. A
única coisa que permaneceu por toda a vida foi a insatisfação com o que não podia
explicar”, analisa Doxiadis. Por esse aspecto, Logicomix engloba vários Russells,
já que o segue da segunda metade da década de 1870 até 1939. E se dá o direito de
alguma “liberdade quadrinística”, inclusive nas participações de nomes célebres
como Kurt Gödel, Gottfried Leibniz e Ludwig Wittgenstein
Não menos intrincada é a forma da narrativa. Como uma matrioska, a boneca russa que
contém outras similares dentro de si, ela se constrói em camadas, na definição de
Doxiadis. A exterior tem como personagens os autores da HQ, envolvidos na tentativa
de esclarecer para eles mesmos o que será tratado nas páginas a seguir. Eles
apresentam os fatos da segunda camada, na qual Russell chega a uma universidade
americana, em 4 de setembro de 1939 – logo depois de o Reino Unido entrar na 2ª
Guerra -, convidado a palestrar sobre a lógica nas questões humanas. É abordado na
entrada por manifestantes, que clamam por seu apoio pela não-participação dos EUA
no conflito, e os convence a entrar no auditório para ouvi-lo.
Na palestra, Russell passa a narrar a terceira camada, cronológica, que começa no
dia em que ele, criança, vai morar com os avós e se vê num ambiente de regras
rigorosas e ardor religioso. É nesse cenário que trava o primeiro contato com a
matemática. Logo percebe uma insatisfação com aquela “mágica” que agora o fascina –
a existência de fatos aceitos sem provas, como o axioma “através de um ponto
exterior a uma reta só é possível passar uma reta paralela a ela”. “De que vale uma
demonstração que se baseia em algo não demonstrado?”, questiona o garoto ao
professor na graphic novel. A imagem o perseguirá pelo resto da vida: “A matemática
era como o cosmos da mitologia indiana: sua aparente solidez na verdade dependia
dos caprichos dos animais que o carregavam. A matemática se erguia sobre bases
instáveis.”
Loucura. É irônico que, no sentido emocional, tenha sido também sobre bases
instáveis que se construiu o pensamento da época. A estranha relação entre lógica e
insanidade é outro tema central da HQ, que desfia exemplos. A loucura acometeu o
russo Georg Cantor (1845-1918), “o homem que provou da árvore do conhecimento do
infinito”, e o alemão Gottlob Frege (1848- 1925), autor dos Fundamentos da
Aritmética; já o austríaco Gödel (1906-1978) morreu de fome, paranoico com a ideia
de ser envenenado. Russell não perdeu a razão, mas temeu isso toda a vida. Dois de
seus tios eram loucos e um filho sofria de esquizofrenia, assim como uma neta, que
se suicidou. “A alta incidência de doenças mentais entre os fundadores da lógica
foi algo sobre o que escreveu (o filósofo e matemático ítalo-americano) Gian-Carlo
Rota. Faz sentido se pensarmos que a lógica leva a extremos”, analisa Doxiadis.
O jovem Bertrand Russell se colocava no limiar entre a filosofia e a matemática.
Era seguidor do alemão David Hilbert (1862- 1943), que pregava a rigorosa exatidão
da demonstração na matemática. O outro extremo tinha como maior nome o francês
Henri Poincaré (1854-1912), defensor da importância da intuição. Mas, por
curiosidade, a maior contribuição do inglês para a discussão enfraqueceu o lado que
ele defendia. Foi em 1901, quando lhe ocorreu a questão que viria a ser
exemplificada mais ou menos desta forma: os homens de uma cidade são obrigados por
lei a fazer a barba todo dia. Eles podem fazer a própria barba ou recorrer ao único
barbeiro local, cuja atribuição é barbear só aqueles que não fazem a própria barba.
Assim sendo, quem faz a barba do barbeiro?
Parece um simples jogo de palavras, mas, para a busca da base lógica na matemática,
foi um baque. A ponto de, dois anos depois, Frege ter incluído um adendo no seu
segundo Fundamentos da Aritmética: “Poucas coisas podem ser mais desastrosas para
um autor de textos científicos do que ter um dos pilares de sua empreitada abalado
depois de concluir sua obra. Vi-me nessa situação ao receber uma carta do sr.
Bertrand Russell, justamente quando o processo de publicação deste volume estava
quase concluído.” Russell e Whitehead passariam duas décadas tentando resolver isso
em estudos que resultariam nos três volumes do Principia Mathematica. Não foram bem-
sucedidos, mas plantaram as bases que inspiraram Gödel e Wittgenstein, entre
outros, e foram fundamentais à ciência da computação.
Ficção. Formado em matemática na Universidade de Columbia, Doxiadis
experimenta a intersecção com a ficção desde 1992, quando publicou o best-seller
Tio Petros e a Conjectura de Goldbach (Editora 34). “Estou acostumado a me dirigir
a pessoas que não entendem de matemática. Acredito que os leitores dos meus dois
livros, em geral, gostam de literatura, e não de obras de ciência popular. Mas não
vejo sentido em tornar as coisas difíceis para o leitor, em fazê-lo trabalhar para
entender o que está lendo.” Sempre hábil com as palavras, o autor fica vários
segundos em silêncio ao ser questionado sobre por que resolveu contar a história
numa HQ. Por fim, argumenta: “Eu nunca poderia escrever um romance histórico. Isso
exigiria enormes descrições, e elas me entediam. Tenho mais interesse por ideias,
diálogos, ações e paixões. Numa graphic novel, você deixa a arte fazer a descrição."