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DOSE TRIPLA DE QUINO, O PAI DA MAFALDA
Em pausa profissional por causa de um glaucoma, ele fala de sua obra recente
Raquel Cozer - O Estado de S. Paulo
As quatro décadas que separam a primeira tira de Mafalda do livro
Que Presente Inapresentável não mudaram a forma de Quino interpretar o
mundo. Nos anos 60, ao ouvir que a TV era "veículo de cultura", Mafalda
concluía: "Se fosse a cultura, descia do carro e ia a pé." Em cartum da coletânea
lançada em 2004, um homem constata, aturdido: "Graças à internet, agora posso ler a
imprensa internacional e saber na hora que horror está o mundo."
Três títulos que saem agora no Brasil - 10 Anos com Mafalda, com
todas as tiras da personagem, publicadas entre 1964 e 1973, Humanos
Nascemos, original de 1987, e Que Presente Inapresentável- permitem
perceber como Quino encontrou diferentes maneiras de reiterar suas convicções ao
longo da carreira. E foi por essa eficácia em retratar a evolução das mazelas do
mundo que causou tamanha repercussão seu anúncio, em abril do ano passado, de que
ficaria um tempo sem desenhar para "renovar ideias".
"Sigo desenhando coisas para mim. O que não estou é publicando neste
momento", afirmou Quino, de Buenos Aires, em entrevista por telefone ao
Estado, na última semana. "Estou sempre buscando temáticas que ainda não
tenha abordado, e isso é muito difícil. É algo sobre o que prefiro não falar porque
ainda não sei qual é a via a seguir."
Quem acompanha de perto a trajetória do autor, no entanto, sabe que há
outra razão para a pausa. Há dois meses, o cartunista passou por uma cirurgia no
olho direito devido ao glaucoma do qual sofre. Não foi a primeira vez que se
submeteu a operação contra a doença, que pode levar à cegueira; nos últimos anos,
passou por uma série delas. Daniel Divinsky, editor de Quino na Argentina, já
chegou a sentenciar: "Creio que o ‘até logo’ disfarce um ‘até nunca’. Para ele, é
uma decisão dolorosa. O glaucoma foi se agravando, ele não vê com precisão para
desenhar bem e fica insatisfeito com o que faz."
Mas novas publicações do artista estão prometidas. A Ediciones de la Flor,
que o publica na Argentina, afirma ter material para lançar uma série temática.
Também por aqui deve sair, sem data definida, uma preciosidade. Trata-se de Mundo
Quino: primeiro volume com cartuns do argentino, de 1963, cujo prefácio da edição
argentina dos anos 90 inclui um mea-culpa do autor. No texto, ele diz ser "estranha
a sensação" de reencontrar um Quino com o qual se identifica e do qual se sente
diferente. "Por um lado, era capaz de uma simplicidade e uma frescura que hoje
invejo. Por outro, descubro-me autor de desenhos de um racismo que, para ser brando
comigo, qualificaria de inconsciente, mas não menos detestável", escreve.
Pessimismo. Hoje, Quino diz acreditar que não mudou. Ao menos, avalia, não
se tornou mais pessimista do que era. "O mundo foi que mudou para pior, em especial
após o 11 de Setembro, quando perdemos segurança. A política também piorou, perdeu
muito terreno frente ao poder econômico", argumenta. Mas parecia mais otimista o
cartunista que, em 1987, na entrevista de abertura do volume 10 Anos com
Mafalda, dizia acreditar que a "inteligência humana saberá sobrepor-se a todos
os perigos".
Nos dias atuais, a inteligência humana lhe parece uma praga. Na conversa
com a reportagem, Quino reproduz argumentos negativos sobre os transgênicos ("Me
parece que está muito mal regulado, ninguém controla como deveria fazer"). a
internet ("Ela cria um excesso de informação entre gente que não se comunica
pessoalmente, e isso me parece bastante triste"), o futebol ("Não há outro esporte
que provoque tantas mortes e violência como ele. Me interessa só como fenômeno
social") e a projeção internacional do Brasil ("Isso foi algo já programado desde
os tempos do Kissinger"). Proprietário de apartamentos em Buenos Aires, Madri,
Paris e Milão, casado há 50 anos com a mesma mulher, Alicia Colombo, e admirador de
vinhos e de boa comida, Quino parece ao menos interessado em tentar retirar do
mundo o que de bom, apesar de tudo isso, ele ainda pode lhe oferecer.
QUEM É QUINO
CARTUNISTA
* CV.: Joaquín Salvador Lavado, nasceu em 17/7/1932, em Mendoza, Argentina. Teve a
primeira tira publicada em 1950 e alcançou fama internacional após mais de uma
década, com as tiras de Mafalda, publicadas de 1964 a 1973. Depois, passou a
criar cartuns sem personagens fixos.
POLÍTICA
Tema central das tiras de Mafalda, a política aparece agora com outro olhar. “Antes
existiam diferenças políticas, esquerda, direita. Hoje tudo isso está unificado em
uma única maneira de querer governar”, diz Quino.
10 Anos Con Mafalda
Autor: Quino
Editora; Martins Fontes
(R$ 52 - 193 páginas)
Humanos Nascemos
Autor: Quino
Editora: Martins Fontes
(R$ 45 - 126 páginas)
Que Presente Inapresentavel!
Autor: Quino
Editora: Martins Fontes
(R$ 36 - 134 páginas)