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    PRAZER DE LER OS CLÁSSICOS, O

    Data: 21/03/2010
    ISBN: 9788578271961
    Veículo: Caderno 2 - O estado de São Paulo
     
    Matéria:
    SINOPSE - DANIEL PIZA

    Viagem vertical

    Já posso imaginar o que alguns articulistas da imprensa brasileira vão escrever
    sobre o livro O Prazer de ler os Clássicos, de Michael Dirda, que chega amanhã às
    livrarias pela editora Martins Fontes. Vão dizer que Dirda confunde cultura com
    consumo, que trata a leitura como deleite burguês, que faz autoajuda para
    endinheirados, que celebra a vitória do mercado sobre a esquerda, etc... O curioso
    é que esses mesmos articulistas, que de vez em quando encontro nos shopping centers
    em meio aos "consumistas" ou "alienados" (que papo velho!), não leram quase nenhum
    dos livros que Dirda comenta. Crentes no socialismo democrático que os professores
    da USP lhes ensinaram, têm aversão - porque têm medo - à ideia de ler por prazer,
    não por política. E nem sequer veem que seu ressentimento é o pior dos elitismos.
    Dirda, ganhador do Pulitzer por suas resenhas no Washington Post, diz que entende o
    senso comum que diz que os clássicos são chatos ou difíceis, mas não concorda com
    ele. "As grandes obras nos falam de sentimentos reais, de nossa própria confusão e
    de nossos devaneios." O que seu livro faz é tentar trazer autores de Lao Tsé e
    Homero a Italo Calvino e James Agee até o leitor atual, com textos de 3 ou 4
    páginas no máximo. É o oposto de ver a leitura como verniz ou obrigação: Dirda põe
    ênfase na admiração que sente pela inteligência e engenhosidade dessas criações,
    por sua capacidade de falar com pessoas de outros tempos e lugares. Sabe que o
    prazer de ler esses livros é diferente de vestir uma bela roupa ou comer num bom
    restaurante, mas sabe também que sem cultura não há elegância que resista à
    primeira conversa.

    Quando escreve sobre Eça de Queirós, por exemplo, nota que todas as páginas de um
    livro como O Crime do Padre Amaro são "divertidas e maliciosas", como quando Amaro
    roça joelho em Amélia enquanto diz que o bom vinho "concorre para a dignidade do
    santo sacrifício". É o único momento em que cita de passagem um escritor
    brasileiro - Machado de Assis, claro. Aliás, Eça é o único nome de língua
    portuguesa incluído no livro. Mas Dirda é o primeiro a lembrar vários outros
    excluídos, como Borges, porque não dá para colocar todos num primeiro livro. Além
    de suas observações, ele tem o mérito de em alguns casos lembrar partes menos
    lembradas das obras de grandes escritores, como a não-ficção de Henry James, como
    seus livros de viagem e seus ensaios literários. O que importa é ir atrás do que
    Dirda indica. Dificuldades vão aparecer aqui e ali e é preciso insistir e se apoiar
    em bons críticos. Mas o prazer recompensa.

    As bancas de jornais, por sinal, estão cheias dos livros sugeridos por Dirda, ao
    lado de best-sellers de autoajuda, etiqueta, negócios, vampiros e seitas. A Abril
    acaba de relançar uma coleção de clássicos a R$ 14,90, começando com Crime e
    Castigo, de Dostoievski, e seguindo por outros 29 títulos, sempre em boas traduções
    (as peças de Shakespeare por Barbara Heliodora, por exemplo). E com a vantagem de
    ter melhor qualidade de capa e papel.

    Já um livro como 501Grandes Escritores, editado por Julian Patrick (Sextante), pode
    até servir como referência para nomes e datas, mas não tem a levada afetiva de
    Dirda e trata tudo quase com o mesmo peso, de acordo com critérios de renome e não
    de requinte. Entre os brasileiros, além do óbvio Machado, incluem Jorge Amado e
    Paulo Coelho. A versão local traz uma lista de 24 outros, como Euclides, Rosa,
    Drummond, Graciliano, Cabral e Lima, mas não Pompéia, Nabuco, Augusto dos Anjos...
    O único do século 19 é Machado. Brasileiros decididamente acham que o passado é um
    tédio.

    Dirda sabe que sem cultura não há elegância que resista à primeira conversa

    Emprestei o título de um dos livros do espanhol Enrique Vila-Matas, autor também de
    O Mal de Montano. Seu mais recente livro no Brasil é Doutor Pasavento (Cosac
    Naify), muito mais para um ensaio romanceado do que para uma ficção ensaística. É a
    história de um escritor em busca do desaparecimento, que cita diversos outros -
    quase um a cada página - e tem especial obsessão por Robert Walser, um desses
    clássicos que o mercado editorial brasileiro ainda maltrata. (Não há um único livro
    dele disponível no Brasil no momento, mas há o de Vila-Matas sobre ele.) Transcreve
    alguns dos minicontos e aforismos do escritor suíço, de seus ensaios breves, de seu
    mergulho no silêncio e na loucura até a morte sobre um monte de neve. E é nesses
    momentos que seu livro atrai, não pela trama narrativa.

    Vila-Matas lembra outros reclusos como Kafka, Salinger e Pynchon, para quem a fama
    era ônus, não bônus. Isso sempre precisa ser visto de maneira desconfiada. Rubem
    Fonseca, por exemplo, é um dos "desaparecidos" da literatura brasileira, e está
    sempre aí, apadrinhando jovens escritoras, sem argumentar nenhum critério técnico.
    Mas o que importa não é o estilo de vida escolhido pelo autor, mas o estilo da
    obra. São poucos, em qualquer época, os livros capazes de nos levar a uma viagem
    vertical, muito abaixo da superfície dos costumes. Talvez ressurjam quando as
    pessoas descobrirem que seu prazer vai além de consumos e ideologias.

     

     

    PRÓXIMOS LANÇAMENTOS
     
    Introdução à análise do direito
    Carlos Santiago Nino
     
    Libertação animal
    Peter Singer
     
    Nova criminologia e os crimes do colarinho branco
    Ryanna Pala Veras
     
    O que é uma criança
    Beatrice Alemagna
     
    O Quilombo dos Palmares
    Edison Carneiro
     
    Pau-Brasil - col. "Um pé de quê?"
    Regina Casé e Estevão Ciavatta
     
    Tempo e narrativa vol. 1
    Paul Ricoeur
     
    Tempo e narrativa vol. 2
    Paul Ricoeur
     
    Tempo e narrativa vol. 3
    Paul Ricoeur
     
    Vocabulário de Aristóteles
    Pierre Pellegrin
     
    Vocabulário de Descartes
    Frédéric de Buzon e Denis Kambouchner
     
    Vocabulário de Merleau-Ponty
    Pascal Dupond
     
     
    SAIU NA MÍDIA

    Data: 05/09/2010
    ISBN: 9788578273057
    Veículo: Livraria da Folha
    Matéria:

    Em 12 sessões, livro apresenta como funciona tratamento de caso clínico...


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    Data: 21/08/2010
    ISBN: 9788578272067
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