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SINOPSE - DANIEL PIZA
Viagem vertical
Já posso imaginar o que alguns articulistas da imprensa brasileira vão escrever
sobre o livro O Prazer de ler os Clássicos, de Michael Dirda, que chega amanhã às
livrarias pela editora Martins Fontes. Vão dizer que Dirda confunde cultura com
consumo, que trata a leitura como deleite burguês, que faz autoajuda para
endinheirados, que celebra a vitória do mercado sobre a esquerda, etc... O curioso
é que esses mesmos articulistas, que de vez em quando encontro nos shopping centers
em meio aos "consumistas" ou "alienados" (que papo velho!), não leram quase nenhum
dos livros que Dirda comenta. Crentes no socialismo democrático que os professores
da USP lhes ensinaram, têm aversão - porque têm medo - à ideia de ler por prazer,
não por política. E nem sequer veem que seu ressentimento é o pior dos elitismos.
Dirda, ganhador do Pulitzer por suas resenhas no Washington Post, diz que entende o
senso comum que diz que os clássicos são chatos ou difíceis, mas não concorda com
ele. "As grandes obras nos falam de sentimentos reais, de nossa própria confusão e
de nossos devaneios." O que seu livro faz é tentar trazer autores de Lao Tsé e
Homero a Italo Calvino e James Agee até o leitor atual, com textos de 3 ou 4
páginas no máximo. É o oposto de ver a leitura como verniz ou obrigação: Dirda põe
ênfase na admiração que sente pela inteligência e engenhosidade dessas criações,
por sua capacidade de falar com pessoas de outros tempos e lugares. Sabe que o
prazer de ler esses livros é diferente de vestir uma bela roupa ou comer num bom
restaurante, mas sabe também que sem cultura não há elegância que resista à
primeira conversa.
Quando escreve sobre Eça de Queirós, por exemplo, nota que todas as páginas de um
livro como O Crime do Padre Amaro são "divertidas e maliciosas", como quando Amaro
roça joelho em Amélia enquanto diz que o bom vinho "concorre para a dignidade do
santo sacrifício". É o único momento em que cita de passagem um escritor
brasileiro - Machado de Assis, claro. Aliás, Eça é o único nome de língua
portuguesa incluído no livro. Mas Dirda é o primeiro a lembrar vários outros
excluídos, como Borges, porque não dá para colocar todos num primeiro livro. Além
de suas observações, ele tem o mérito de em alguns casos lembrar partes menos
lembradas das obras de grandes escritores, como a não-ficção de Henry James, como
seus livros de viagem e seus ensaios literários. O que importa é ir atrás do que
Dirda indica. Dificuldades vão aparecer aqui e ali e é preciso insistir e se apoiar
em bons críticos. Mas o prazer recompensa.
As bancas de jornais, por sinal, estão cheias dos livros sugeridos por Dirda, ao
lado de best-sellers de autoajuda, etiqueta, negócios, vampiros e seitas. A Abril
acaba de relançar uma coleção de clássicos a R$ 14,90, começando com Crime e
Castigo, de Dostoievski, e seguindo por outros 29 títulos, sempre em boas traduções
(as peças de Shakespeare por Barbara Heliodora, por exemplo). E com a vantagem de
ter melhor qualidade de capa e papel.
Já um livro como 501Grandes Escritores, editado por Julian Patrick (Sextante), pode
até servir como referência para nomes e datas, mas não tem a levada afetiva de
Dirda e trata tudo quase com o mesmo peso, de acordo com critérios de renome e não
de requinte. Entre os brasileiros, além do óbvio Machado, incluem Jorge Amado e
Paulo Coelho. A versão local traz uma lista de 24 outros, como Euclides, Rosa,
Drummond, Graciliano, Cabral e Lima, mas não Pompéia, Nabuco, Augusto dos Anjos...
O único do século 19 é Machado. Brasileiros decididamente acham que o passado é um
tédio.
Dirda sabe que sem cultura não há elegância que resista à primeira conversa
Emprestei o título de um dos livros do espanhol Enrique Vila-Matas, autor também de
O Mal de Montano. Seu mais recente livro no Brasil é Doutor Pasavento (Cosac
Naify), muito mais para um ensaio romanceado do que para uma ficção ensaística. É a
história de um escritor em busca do desaparecimento, que cita diversos outros -
quase um a cada página - e tem especial obsessão por Robert Walser, um desses
clássicos que o mercado editorial brasileiro ainda maltrata. (Não há um único livro
dele disponível no Brasil no momento, mas há o de Vila-Matas sobre ele.) Transcreve
alguns dos minicontos e aforismos do escritor suíço, de seus ensaios breves, de seu
mergulho no silêncio e na loucura até a morte sobre um monte de neve. E é nesses
momentos que seu livro atrai, não pela trama narrativa.
Vila-Matas lembra outros reclusos como Kafka, Salinger e Pynchon, para quem a fama
era ônus, não bônus. Isso sempre precisa ser visto de maneira desconfiada. Rubem
Fonseca, por exemplo, é um dos "desaparecidos" da literatura brasileira, e está
sempre aí, apadrinhando jovens escritoras, sem argumentar nenhum critério técnico.
Mas o que importa não é o estilo de vida escolhido pelo autor, mas o estilo da
obra. São poucos, em qualquer época, os livros capazes de nos levar a uma viagem
vertical, muito abaixo da superfície dos costumes. Talvez ressurjam quando as
pessoas descobrirem que seu prazer vai além de consumos e ideologias.